2012

Maio


Sofismas


Nestes últimos dias fomos confrontados com afirmações bem reveladoras dos sofismas com que os senhores que ocupam as pastas governamentais nos têm presenteado. Começamos por referir que o secretário-geral da UGT veio a terreiro denunciar o incumprimento, por parte do Governo (quem mais poderia ser?), do que tinha sido formalizado no acordo de concertação social, dado que não foram tomadas até agora quaisquer medidas para o relançamento da economia e criação de postos de trabalho, ao invés do que foi estabelecido. Mas o senhor Presidente do Conselho, segundo o secretário-geral da UGT, tirou o tapete aos ministros e garantiu-lhe que tal vai suceder, sem indicar, ao que supomos, qualquer data para tal concretização...

João Proença referiu, ainda, na entrevista concedida ao Expresso, que o IEFP, no primeiro trimestre deste ano, teve o pior resultado de sempre, já que em termos orçamentais despendeu nas políticas activas de emprego menos 44% do que no ano passado, o qual já tinha sido mau! O programa de estágios profissionais caiu a pique. E o único programa criado por este Governo – o Estímulo 2012 – teve 150 pessoas abrangidas em Março. Zero em Fevereiro!

Por sua vez, o senhor Presidente do Conselho veio afirmar que os Subsídios de Férias e de Natal começarão a ser “repostos” até 2018, sendo que será de modo faseado, ou seja 25% daqueles montantes em cada um dos anos de 2015, 2016, 2017 e 2018, mas desde logo ficou o aviso de que tal somente será concretizado se existir folga orçamental, ou seja, pode ser que sim, mas também pode ser que não...

Retomando a questão do incumprimento do acordo de concertação social, vimos recordar que muito recentemente o Ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, afirmou que o acordo de concertação social é fundamental para todos os parceiros sociais e para o Governo e é, principalmente, fundamental para o País, acrescentando que o Governo tenciona cumpri-lo integralmente.

Sublinhando que «em três meses, já muito foi alcançado, muitas outras medidas estão em curso e estão a ser acompanhadas», o Ministro explicou que algumas das medidas «não podem ser já implementadas porque existem dificuldades técnicas óbvias que têm que ser superadas». Contudo, lembrou, o acordo é para vigorar nos próximos «dois a três anos».

Com a certeza de que «estamos a fazer o que podemos para cumprir integralmente e o mais rápido possível» aquilo que o Governo negociou com os parceiros sociais, Álvaro Santos Pereira deu como exemplo a medida que prevê a acumulação do subsídio de desemprego com uma oferta de emprego, desde que a remuneração seja inferior ao valor do subsídio.

Como se verifica, este é mais um dos sofismas recorrentes de membros do Governo.

Não podemos deixar de referir, ainda, o inefável Ministro Gaspar, que, nas suas inúmeras intervenções, em Portugal, seja nas conferências de imprensa, nos debates na Assembleia da República, nas comunicações que profere no final de alguns Conselhos de Ministros (pensamos que em substituição do Senhor Presidente do Conselho...), seja ainda nas entrevistas que concede às televisões, assume sempre um ar compungido e a soletrar lentamente as palavras, entermeando-as com longas pausas, aparentando dar a entender que as pessoas a quem se dirige, e que seremos todos nós, são de compreensão lenta e há que lhes dar (a nós) tempo para assimilar as pérolas com que nos brinda.

Repare-se, porém, na atitude que este mesmo inefável Ministro assume quando no estrangeiro. Assim, nas entrevistas televisivas concedidas, por exemplo nos Estados Unidos da América, ele fala de um modo desenvolto, sem uma pausa, com enorme à vontade, o que nos leva a questionar se será assim por se sentir em casa quando se encontra no estrangeiro, e se sente no estrangeiro quando se encontra em Portugal, ou se, simplesmente, estará a “gozar” com todos nós...

Mas talvez este seja o nosso sofisma...

João Colaço