2009

Março


A CRISE E A MISSÃO DOS TOC
Como profissionais da contabilidade e da fiscalidade, temos que procurar ser o mais rigorosos que nos for possível, para que as demonstrações financeiras por nós elaboradas correspondam...


Quando viramos as últimas páginas do calendário do mês e nos apercebemos que há que escrever o Editorial relativo ao mês seguinte, cujas perspectivas têm a sua base nos acontecimentos ocorridos no tempo entretanto decorrido, sentimos sempre uma espécie de ansiedade quanto ao que devemos dizer, pois, segundo a nossa consciência, incumbe-nos tentar transmitir o que pensamos ser o sentimento dos Prezados Leitores, Colegas e Amigos, mas procurando deixar sempre expressa uma palavra de confiança e de estímulo.

Confessamos, no entanto, que o grau de dificuldade desta nossa missão tem vindo a aumentar a cada mês que passa. 

Hoje, quando olhamos ao nosso redor, sentimos que nos encontramos no meio de uma tempestade e mergulhados num mar encapelado, com as ondas a aumentar de intensidade e força impelidas por ventos cada vez mais ciclónicos.

Poderão os Prezados Leitores, Colegas e Amigos, pensar que estas palavras não passam de mera retórica, mas, infelizmente, cremos que elas espelham bem a actual voragem que nos atormenta e consome.

O encerramento exponencial de empresas, com um grande número delas a serem extintas por falência ou insolvência, com o consequente brutal aumento do desemprego, o que arrasta consigo não só a quebra de receitas para o Estado como o aumento dos correlativos encargos com os desempregados, não pode deixar de nos atormentar.

E, para agravar ainda mais esta sensação de inquietude, esta situação surge no final de um período de três anos durante o qual muitos sacrifícios foram por todos suportados para que o País recuperasse do défice e recuperasse a credibilidade junto da União Europeia.

Mas, e por mais caricato que tal nos pareça, esta crise, que teve origem nos acérrimos defensores do livre funcionamento dos mercados, que por todo o mundo, e, no nosso País, com especial afinco, exigiam que os Estados restringissem os seus poderes e deixassem à iniciativa privada o desenvolvimento de todas as actividades, com especial sofreguidão pelas actividades financeiras, saúde, educação, distribuição de água, electricidade, combustíveis, comunicações, transportes, etc., etc., esses mesmos acérrimos defensores da iniciativa privada que, com a sua ganância especulativa, arrastaram o mundo para o mar encapelado em que milhões de pessoas se estão a afogar, têm vindo a exigir que os Estados apoiem e suportem os custos desta hecatombe.

Apesar do nosso proverbial optimismo e da crença profunda que temos que o coração dos homens de boa vontade contém em si suficiente solidariedade para abraçar o mundo, não podemos deixar de manifestar a nossa preocupação pelos imprevisíveis afloramentos de mal estar social que são, na maior parte das vezes, incubadoras de revoltas sociais e políticas.

Nestas situações, Prezados Leitores, Colegas e Amigos, geralmente pagam os justos pelos pecadores. São os que já pouco tinham que passam a ter ainda menos, ou mesmo nada. Quanto àqueles, que à sombra da exigência da total liberdade para fazer funcionar os mercados de acordo com os seus desígnios, nos arrastaram para este autêntico “buraco negro” cuja dimensão é ainda insondável, só uma ínfima minoria apresentará contas à justiça, e tememos que a punição não seja dura como o deveria ser atendendo à magnitude do mal que causaram

Porém, é usual afirmar-se que as situações de crise são, elas próprias, criadoras de novas oportunidades.

Adicionalmente, há que reconhecer que a capacidade humana de se adaptar e sobreviver às catástrofes é um facto incontroverso.

Tenhamos, pois, a esperança que a humanidade saiba aprender com os seus erros e, aproveitando os dois factores atrás enunciados, sejam criadas condições para que o mundo passe a trilhar novos caminhos, mais solidários e fraternos, sem o que o fosso entre os muito pobres, autênticos párias, e os muito ricos, autênticos nababos, não cessará de aumentar.

E, no que nos concerne, como profissionais da contabilidade e da fiscalidade, temos que procurar ser o mais rigorosos que nos for possível, para que as demonstrações financeiras por nós elaboradas correspondam à imagem verdadeira e apropriada da posição financeira e do resultado das operações das empresas.

Cremos que será fundamental, para que a crise seja ultrapassada com sucesso, que esta nossa missão seja coroada de êxito, assim saibam os restantes intervenientes na sociedade global onde estamos inseridos cumprir com os deveres, direitos e obrigações que a cada um incumbe.

João Colaço